quinta-feira, 19 de maio de 2011

Touradas? Não, obrigado!


segunda-feira, 25 de abril de 2011

1º de Maio 2011



1º de Maio de 2011 – Manifestação Anti-Capitalista em Setúbal

Chamada à recuperação da tradição combativa e anti-autoritária do “dia do trabalhador”
{Chamada a uma mobilização geral}

Desde o grupo de pessoas que compõem o recém formado colectivo anarquista *Terra Livre* de Setúbal queremos convocar uma manifestação de indivíduos, grupos, colectivos, espaços ou sindicatos apartidários, anti-autoritários, anti-políticos ou autónomos para o Domingo 1º de Maio de 2011.
Desejamos fazer desta data um marco de mobilização não controlada por nenhuma força partidária, por nehuma central sindical , ou qualquer força de repressão e controlo do Estado.
Desejamos recuperar o seu carácter de mobilização geral de trabalhadores, desempregados, estudantes e de todos quantos anseiam por uma sociedade nova, livre de violência capitalista, jogos partidários e repressão estatal.

{1º de Maio de 1886}

Em Chicago, EUA, as mobilizações operárias são violentamente atacadas pela polícia, seguranças privados e mercenários nas mãos dos ricos. Ao fogo tirano responde o fogo dos revolucionários. Caem corpos no chão dos dois lados da barricada.
Uma dezena de anarquistas são presos, condenados e injustamente assassinados: não interessava a verdade, mas sim o exemplo e a instauração de um clima de terror e medo entre o povo.
O efeito foi contrário: desse dia em diante, por todo o mundo, milhões de pessoas se levantam em solidariedade com esses anarquistas presos, propondo-se a resgatar da prisão essas sementes de dignidade humana. E dos corpos desses anarquistas cravejados das balas do poder e da infâmia, brotaram as raízes do assalto colectivo às cúpulas, para tentar trazer a (des)ordem capitalista aos seus joelhos e finalmente decapitá-la.
Até aos dias de hoje houve algumas vitórias, muitas derrotas e demasiadas traições… mas não houve um momento de descanso. A violência do Estado e dos patrões mudou bastante, perdendo a sua “simplicidade” enquanto refinava as suas tácticas, adquirindo tecnologia de ponta e requintes repugnantes de crueldade e maquiavelismo. Pelo contrário, as condições laborais / sociais/ económicas têm andado para trás, estando hoje pouco ou nada melhor do que no inicio do século passado, apesar dos gigantescos avanços tecnológicos e ciêntificos.
O que podemos aprender desses tempos, recusando qualquer mistificação do passado, é que a solidariedade e a acção colectiva das bases surgem sempre como uma poderosa arma em tempos de guerra suja dos governantes contra os seus governados

{2011 – Estamos Inquietos }

Há várias posições assumidas, mas dê lá por onde der, um facto é hoje inegável, da Tunísia à China, da Grécia a Portugal: os dias da paz social e apatia inquebrável ficaram para trás. Muitos sabiam que mais tarde ou mais cedo aconteceria, outros foram apanhados de surpresa. Alguns já tinham feito as suas jogadas antecipando-se, mas muitos mais têm agido com a espontaneidade e criatividade que os tempos exigem.

O que nos causa hoje em dia uma grande inquietação não é simplesmente o facto de vivermos sob o controlo de um poderoso Estado que nos oferece blindados e policias para resolver a nossa fome.
Não é só o facto de termos de apertar tanto o cinto até que o tenhamos de pôr finalmente à volta do pescoço.
Nem tão pouco a “crise” desta economia que nos obriga a todos a ser seus fiadores e que no fundo existe desde que o capitalismo é a nossa forma de regime económico.
Não é só o facto dos direitos laborais serem sinónimos de uma escravatura com menos chicotes, ou da democracia ser a maior ditadura de que há memória.
O que nos inquieta é saber que é de todos nós que se alimenta este virús chamado capitalismo, e portanto que é também de nós que depende a sua destruição.
Estamos inquietos e é sem dúvida nenhuma o tempo de sair à rua. Sem líderes nem partidos, sem cúpulas nem dirigentes. Sabendo que assim que levantamos a voz e os braços surgem imediatamente alcateias de instituições, partidos e organizações a quererem controlar os nossos gritos. Sabemos também que independentemente da data, todos os dias são um bom dia para recuperarmos a dignidade que o estado e a ganância de alguns nos foram roubando a todos.
Portanto, movermo-nos colectivamente a partir da base e de forma autónoma no primeiro dia de Maio é fruto do desejo de nos movermos assim todos os dias! E assim deixarmos para trás a corja de abutres e oportunistas que tentarão anunciar-se como “salvadores da pátria”, tão interessados que estão em chupar o nosso sangue de uma forma mais “justa”, mais “democrática” ou mais “nacionalista”.


{Porquê Setúbal?…}


Setúbal mantém um espírito rebelde apesar das inúmeras investidas do progresso capitalista e da pobreza. É uma cidade com fortes raízes de lutas libertárias, que nunca deixou de ser território de conflitos sociais. A ideia era propôr Setúbal como local anual para as iniciativas libertárias do 1º de Maio reconhecendo na cidade o potencial para um protesto mais vísivel nas ruas e menos imiscuido na paleta de cores partidarias e institucionais que as grandes mobilizações trazem a Lisboa.
O objectivo seria termos o espaço para criar uma mobilização autónoma e de base e consideramos que em Lisboa esta tarefa é bem mais difícil, confusa e frustrante; acrescida de toda a perseguição promovida vezes sem conta pelo grupo de ordem da CGTP (cujos abusos não tencionamos tolerar) que coopera e participa das tácticas repressivas da Polícia (para mais tarde fazerem figuras tristes a indignar-se com a “violência policial” quando lhes toca a eles) e que nos atraí com demasiada frequência para um confronto que não é o nosso objectivo.
O nosso desejo não é, no entanto, criar espaço para que membros de base da cgtp sejam alvos dos nossos insultos já que antes de considerarmos um individuo como “sindicalista” ou “membro da cgtp” considera-lo-emos enquanto individuo. Os nossos insultos ficam guardados para os dirigentes e para as cúpulas.
Não foi nem nunca será difícil expressar as nossas ideias e a nossa combatividade se em vez de nos focarmos no que há de criticável nas organizações sindicais, nos focarmos nos nossos princípios, métodos e objectivos.

{E agora… mãos à obra companheiros!}

Queremos pôr esta proposta em discussão. Levem-na aos vossos grupos, colectivos, companheiros, camaradas ou amigos do café. Planeiem, conspirem, discutam e critiquem.
Pelo caminho vão haver um par de reuniões para acertar detalhes, e uma assembleia mais abrangente. Se quiseres participar nas preparações ou tiveres sugestões entra em contacto através do nosso e-mail. Todos poderemos aportar com um pouco para a realização deste projecto e seguramente conseguimos fazer o possível e o impossível. Sempre o conseguimos. Sem estruturas hierárquicas, sem autoridades mesquinhas e sem politiquices.

Sem nada disso, mas com toda a determinação, respeito, dignidade e combatividade.


Todos a Setúbal no 1º de Maio 2011, pelas 13:00 no Largo da Misericórdia.


Nota- Até ao momento não se conhece qualquer convocatória para a celebração do dia 1 de Maio nos Açores. Alguns "sindicalistas" dos Açores costumam "manifestar-se" em Lisboa.

domingo, 17 de abril de 2011

ANARQUISMO PARA PRINCIPIANTES


Se acreditarmos no senso comum, e no que dizem os dicionários, sobre as palavras anarquia e anarquismo, estas significarão desordem, caos, confusão. Mas se pesquisarmos um pouco mais, veremos do que se trata verdadeiramente é de conceitos usados por pensadores e activistas sociais de uma importante escola do pensamento politico a que estão associados nomes como Proudhon, Bakunin, Kropotkin, Elisée Reclus, Malatesta, Murray Boochkin, Michael Foucault, Gilles Deleuze, Noam Chomsky e, em Portugal, Antero de Quental, Eça de Queiroz, Aquilino Ribeiro, Ferreira de Castro, António Sérgio, Aurélio Quintanilha, Emídio Santana, etc.

Anarquismo para Principiantes ajuda a compreender o verdadeiro significado, as ideias e a história do anarquismo e da anarquia para além das mistificações e preconceitos que habitualmente os envolvem e que leva a um grande desconhecimento por parte das pessoas em geral.

Na verdade, anarquia não significa ausência de ordem, mas antes ausência de Estado e de representantes políticos que decidem sobre os nossos assuntos ( da população em geral), que nos controlam e nos manipulam em funções dos interesses que não são os nossos. Anarquismo preconiza, pois, uma ordem sem poder, na medida em que são as próprias pessoas que se auto-organizam segundo os princípios da cooperação, do apoio mútuo e da solidariedade, sem necessidade de um Estado. Os anarquistas defendem serviços públicos a favor da comunidade, mas não os serviços estatais centralizados por um governo.

E, hoje, quando as doutrinas liberais e marxistas se vêem desacreditadas face à evolução social, o que vemos a ressurgir um pouco por todo o mundo são os valores libertários, as ideias e as práticas cooperativas defendidas pelos anarquistas, que passam a marcar presença nos fóruns e nos debates sobre os mais variados assuntos desde a ecologia, as redes sociais, a democracia directa e participativa, a cultura popular, movimentos sociais, as vanguardas artísticas, etc, e que, apesar da sua pluralidade, têm em comum a luta pela emancipação social e o respeito pela dignidade e liberdade de cada indivíduo.

O livro Anarquismo para Principiantes ajuda-nos a fazer uma primeira abordagem às ideias e à história do anarquismo, sem dispensar outras leituras posteriores

Texto de Viriato Porto (facebook)

O livro pode ser descarregado aqui: http://www.4shared.com/document/VplQw4oa/Anarquismo_para_principiantes.html

domingo, 13 de março de 2011

Estamos com as várias gerações à Rasca



Perto de um milhar de pessoas, de acordo com os números da organização, percorreram hoje (12 de Março) as ruas de Ponta Delgada, integrando a Manifestação da Geração à Rasca que reuniu em todo o país cerca de 280 mil manifestantes.


"Basta!", "Cunha precisa-se!" e "Queremos trabalhar!" foram algumas das palavras de ordem proferidas pelos manifestantes "desempregados, quinhentoseuristas e outros mal remunerados" que se concentraram por volta das 15:00 junto às Portas da Cidade.

A manifestação pacífica e apartidária - que, no entanto, contou com a presença de vários membros dos partidos políticos representados na Assembleia Legislativa Regional - percorreu as ruas da cidade, animada pela música de Zeca Afonso, dos Homens da Luta e dos Deolinda, reunindo várias gerações rumo ao Palácio da Conceição, sede do Governo Regional, a quem os manifestantes queriam entregar um manifesto que expressava as precupações da "Geração à Rasca."

Não tendo sido recebidos por nenhum representante do Governo Regional, os manifestantes voltaram atenções para a emissão em directo do programa televisivo Atlântida, da RTP Açores, que decorria no centro comercial SolMar.

Os poucos elementos da PSP que se encontravam no local foram insuficientes para conter os manifestantes que voltaram a fazer ouvir o seu protesto, durante o directo da RTP Açores.

Sem incidentes, o espaço foi sendo evacuado e a manifestação dispersou pouco tempo depois.

Reportagem: Isidro Fagundes

Fonte:http://ww1.rtp.pt/acores/index.php?article=20082&visual=3&layout=10&tm=10

sábado, 12 de março de 2011

O Criminoso é o eleitor


O CRIMINOSO!
És tu o criminoso, ó Povo, já que és tu o Soberano. És, é verdade, o criminoso inconsciente e ingénuo. Votas e não vês que és vítima de ti mesmo. Contudo, não reparaste ainda por experiência própria que os deputados, que prometem defender-te, como todos os governos do mundo presente e passado, são mentirosos e impotentes?
Sabe-lo... e queixas-te disso! Sabe-lo e nomeia-los! Os governantes, quaisquer que sejam, trabalharam, trabalham e trabalharão pelos seus interesses, pelos das suas castas e das suas súcias.

Onde foi e como poderia ser de maneira diferente? Os governados são subalternos e explorados: conheces algum que o não seja?

Enquanto não tiveres compreendido que só a ti cabe produzir e viver à tua maneira, enquanto suportares – por medo – e fabricares – por crença na autoridade necessária – chefes e directores, fica também a sabê-lo, os teus delegados e os teus amos viverão do teu labor e da tua patetice. Queixas-te de tudo! Mas não és tu o autor das mil chagas que te devoram?

Queixas-te da polícia, do exército, da justiça, das casernas, das prisões, das administrações, das leis, dos ministros, do governo, dos financeiros, dos especuladores, dos funcionários, dos patrões, dos padres, dos proprietários, dos salários, dos desempregados, do parlamento, dos impostos, dos fiscais da alfândega, dos possuidores de rendimentos, da carestia dos víveres, das rendas dos prédios rústicos e urbanos, dos longos dias de trabalho na oficina e na fábrica, da magra ração, das privações sem conta e da massa infinita das iniquidades sociais.

Queixas-te, mas queres a manutenção do sistema em que vegetas. Revoltas-te, por vezes, mas para recomeçar sempre no mesmo. És tu que produzes tudo, que lavras e semeias, que forjas e teces, que amassas e transformas, que constróis e fabricas, que alimentas e fecundas!

Porque não consomes até à saciedade? Porque és tu o mal vestido, o mal alimentado, o mal abrigado? Sim, porque és o Zé Ninguém sem pão, sem sapatos, sem morada? Porque não és o senhor de ti mesmo? Porque te curvas, obedeces, serves? Porque és tu o inferior, o humilhado, o ofendido, o servidor, o escravo?

Elaboras tudo e nada possuis? Tudo é por ti e tu nada és.

Engano-me. És o eleitor, o maníaco do voto, o que aceita o que é; o que, pelo boletim de voto, sanciona todas as misérias; o que, ao votar, consagra todas as suas servidões.

És o criado voluntário, o doméstico amável, o lacaio, o serviçal, o cão que lambe o chicote, que rasteja diante do pulso teso do dono. És o chui, o carcereiro e o bufo. És o bom soldado, o guarda-portão modelo, o locatário benévolo. És o empregado fiel, o servidor dedicado, o camponês sóbrio, o operário resignado com a sua própria escravatura. És o carrasco de ti mesmo. De que te queixas?

És um perigo para nós, homens livres, para nós, anarquistas. És um perigo de igual modo que os tiranos, os senhores que crias para ti próprio, que nomeias, que apoias, que alimentas, que proteges com as tuas baionetas, que defendes com a tua força de bruto, que exaltas com a tua ignorância, que legalizas com os teus boletins de voto – e que nos impões com a tua imbecilidade.

És bem o Soberano que bajulam e levam à certa. Os discursos lisonjeiam-te.
Os cartazes prendem-te a atenção; gostas das parvoíces e que te façam a corte: satisfaz-te, enquanto aguardas que te fuzilem nas colónias, te massacrem nas fronteiras, à sombra ensanguentada da tua bandeira.

Se línguas interesseiras lambem à volta da tua real bosta, ó Soberano! Se candidatos sedentos de posições de chefia e atafulhados de banalidades escovam o espinhaço e a garupa da tua autocracia de papel; se te embriagas com as lisonjas e as promessas que te vertem os que sempre te traíram, te enganam e vender-te-ão amanhã: é porque te pareces com eles. É porque não vales mais que a horda dos teus famélicos aduladores. É porque, não tendo podido elevares-te à consciência da tua individualidade e da tua independência, és incapaz de te emancipar por ti mesmo. Não queres, portanto, não podes ser livre.

Vamos, vota bem! Tem confiança nos teus mandatários, acredita nos teus eleitos.
Mas deixa de te queixar. Os jugos que suportas, és tu mesmo que tos impões. Os crimes de que padeces, és tu que os cometes. És o senhor, és o criminoso e, ó ironia!, és o escravo, és a vítima.

Nós, saturados da opressão dos amos que nos dás, saturados de suportar a sua arrogância, saturados de suportar a tua passividade, vimos chamar-te à reflexão, à acção:
Vamos, tem um bom movimento: despe o hábito estreito da legislação, lava o teu corpo rudemente, a fim de que rebentem os parasitas e a bicharia que te devoram. Só então poderás viver plenamente.

O CRIMINOSO É O ELEITOR!


Albert Libertad, Proclamação do
jornal “L´anarchie”, Março de 1906

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

O voto? – Nem secreto, nem masculino, nem feminino.


O voto secreto? – A confissão pública da covardia, a confissão pública da incapacidade de ostentar a espinha dorsal em linha reta, a confissão publica do servilismo e da fidelidade aviltante de uns, do dominismo das mediocracias legalmente organizados.
Democracia? – Ferrero a definiu: “este animal cujo ventre é imenso e a cabeça insignificante”…
O voto não é a necessidade natural da espécie humana: é uma das armas do vampirismo social. Se tivéssemos os olhos abertos, chegaríamos a compreender que o rebanho humano vive a balar a sua inconsciência, aplaudindo à minoria parasitária que inventou-a e representa a “tournée” da teatralidade dos governos, da política, da fosca armada, da burocracia de afiliados – para complicar a vida cegando aos incautos, a fim de explorar a todo o gênero humano em proveito de interesses mascarados nos ídolos do patriotismo, das bandeiras, da defesa sagrada dos nacionalismo e das fronteiras, da honra e da dignidade dos povos …
Depois, a rotina, a tradição, a escola, o patriotismo cultivado, carinhosamente, para que carneirada louve, em uníssono, o cutelo bem afiado dos senhores. A religião, a família se encarrega do que falta para desfibrar o individuo.
O voto, a legislação interesseira e mesquinha dos pais da Pátria, Parlamentos, Senados, Consulados, Ditaduras, Impérios, Reinos, republicas, Exércitos, Embaixadores, Mussolini – “escultores de montanhas”, símbolos da cegueira do rebanho humano, ídolos que substituem e se equivalem, brinquedos perversos de crianças grandes, sonhos transformados em “verdades mortas”, infância, atavismo de paranóicos…
A política é um trapézio.
Direito do povo, sufrágio universal… Palavras. Dentro do demagogo há uma alma de tirano. Caída a máscara que atraiu o rebanho humano, o ditador salta no picadeiro da política, as duas mãos ocupadas: em uma, o “manganelo”; na outra, o óleo de rícino…
Tem razão Aristóteles: “O meio de chegar à tirania é ganhar confiança da multidão: o tirano começa sempre por ser demagogo. Assim fizeram Pisistrate em Athenas, Téagéne em Mégara, Denys em Syracusa.”
Assim fez Mussolini.
Quando Ruy Barbosa, por exemplo, falava tão alto contra os nobres pais da pátria, é porque tinha na alma o despeito louco de não ter sido elevado ao pico máximo da vontade de poder.
Em política, age-se de modo inverso: os tribunos demagogos adulam o povo, elogiam a soberania do povo, proclamam dos direitos do povo, prometem a felicidade do povo e sobem empurrados pela embriaguez nacionalista e pelo servilismo e docilidade do povo, mas mais representado pela “populaça de cima”…
Quem quiser subir aos picos da vontade de poder, não procura as vozes desassombradas e nem toma decisões sem ouvir a direção de seu partido. Obedecer é a escola de quem quer mandar.
O político é um acrobata e, para alguém ser acrobata tem que principiar cedo a deslocar todas as juntas…
O político quando sobe às culminâncias da glória e do poder, já se dobrou tanto, já se curvou já se humilhou, já fez de tal modo o corpo de arco e a alma em camaleão que é capaz identificarem-se com o molusco.
Como deve ser difícil engolir a liberdade de opinião, a liberdade de consciência, a liberdade da imprensa, a coragem de proclamar altas as convicções – se fazemos parte de um partido definido, com declaração de princípios e afirmações categóricas e ação metodicamente organizada para derrubar partidos contrários ou dogmas religiosos que vêm ferir os nossos dogmas e pôr diques à nossa desenvoltura apostólica!…
Quando a imprensa é só louvor aos “eleitos” de cada partido político; se ninguém quer senão o que interessa aos seus planos e aos projetos e decisões do seu partido; se todos se preocupam com o cidadão e desprezam o homem livre, se se trata de ser sempre contra alguém, para subir, para vencer, custe o que custar; se obedecemos à lei em prejuízo da consciência; se fechamos os olhos para ver e nos servimos da lógica como instrumento para abafar as vozes sinceras; se semeamos o ódio e as ambições, nas farsas patrióticas do nacionalismo de partidos a se digladiarem pelo osso da vontade de poder, pelo osso do domínio pela gloria política – abrimos alas a uma ditadura mussolinesca como todas as arlequinadas do “manganello”, batuta da orquestração paranoica do atavismo elevado à altura de gênio, e que há de representar, condignamente a dignidade de Cônsul, como aquele cavalo célebre…
Também nós insensivelmente, pouco a pouco, preparamos o ambiente para que surja, neste país, um capataz, rebenque em punho, para Gaudio dos acrobatas moluscos das democracias de demagogos.
Somos uma nação de leis.
E Sócrates já dizia: “é a lei que corrompe os homens. Quem quer que aconselhe: ‘Obedeça à lei’ – é corruptor aos olhos do filósofo. Mas, quem quer que aconselhe: ‘Obedeça à tua consciência’ – é corruptor aos olhos do povo e dos magistrados”. (Han Ryner- “Les véritables estretiens de Socrate”.)
E, a propósito da liberdade da imprensa, lembremo-nos ainda de Sócrates: “Parece-me bem insignificante a coragem que acha temíveis certas verdades.”
Que será preciso para ser político ou servir a amigos políticos? – Ouvir, observar, acatar, obedecer, curvar-se ante os poredros da política, louvar ao povo, cantar a soberania do povo, prometer liberdades e… Fazer ginástica.
Cada um de nós tem o direito a si mesmo. Ninguém pode exigir da consciência de outrem.
Os homens se esqueceram da própria realização interior – para cuidar de todas as necessidades perfeitamente desnecessárias, criada pela avidez do progresso material, do gozo, do luxo, da ociosidade, criadas pelo cupidez do capitalismo absorvente e pela perversidade inominável do industrialismo de tudo, inclusive das consciências, organização social de caftense de vampiros do sentimento humano, mantida pela policia, pelo capital, pelas religiões dominantes, que separa os humanos em vez de unir, e pela força armada – escola que chacina para formar almas de canibais condecorados.
Cada um de nós tem o seu governo interior: tudo que vem de fora, não constituindo uma nota de beleza, de harmonia vibrando em uníssono com a nossa harmonia – é a violência, é ódio que gera o ódio. Mandar, como obedecer, é covardia: degrada, avilta, imbeciliza o gênero humano.
Maria Lacerda de Moura
Amai e… Não vos multipliqueis
Ano 1932
Editora: Civilização Brasileira
Paginas 56 a 60
Digitalizado por Dança das Ideias.
http://ateneudiegogimenez.wordpress.com/2010/12/06/a-politica-nao-me-interessa/

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

2011 - Um Ano de Luta