quinta-feira, 5 de abril de 2018

Pela Paz

sábado, 3 de março de 2018

Adriano Botelho, um anarquista açoriano desconhecido na sua terra



Adriano Botelho, uma anarquista açoriano desconhecido na sua terra

No dia 26 de julho de 1989, o jornal Correio dos Açores noticiou o surgimento de uma nova edição da Secretaria Regional da Educação e Cultura, da Região Autónoma dos Açores: o livro “Adriano Botelho – Memória e Ideário”, uma antologia de textos organizada e prefaciada por Carlos Abreu e João Freire.

A notícia referida, talvez a única num jornal açoriano em que nome de Adriano Botelho é mencionado e uma pequena nota biográfica, da autoria de Carlos Enes, inserida na Enciclopédia Açoriana (1) são a prova de que os poderes instituídos estão mais interessados em dar a conhecer intelectuais amorfos, políticos retrógrados, pretensos fidalgos e quejandos, esquecendo-se de gente séria, modesta e boa e de quem perfilha ideias progressistas e/ou age para acabar com uma sociedade injusta.

Nesta pequena nota, pretende-se por um lado homenagear o anarquista açoriano que não traiu os seus ideais e dar a conhecer um pouco da sua vida e obra para que não caiam no esquecimento e sirvam de exemplo às novas gerações.

Adriano Inácio Botelho nasceu em Angra do Heroísmo, na ilha Terceira, a 12 de setembro de 1892, tendo lá residido até 1907, ano em que foi viver para Ponta Delgada, ilha de São Miguel, onde completou o curso dos liceus, em junho de 1909.

Embora tenha ouvido falar, por volta dos seus 12 ou 13 anos, através do seu professor de História, Geografia e Francês do liceu de Angra do Heroísmo, onde frequentou os primeiros cinco anos, de socialismo que era segundo aquele “a doutrina da igualdade económica” e se ter sentido “entusiasmado por esse sociedade, em que não haveria pobres e ricos”, até 1909, ano em que saiu de São Miguel não tinha “ideias político-sociais assentes”.

Chegou a Lisboa em outubro de 1910, onde se matriculou na Escola Politécnica com o objetivo de concorrer à Escola de Guerra. Como os estudos não correram bem, foi para Coimbra pouco depois da instauração da República, tendo aí acompanhado a agitação que “reclamava os cursos livres e a criação duma faculdade de Direito em Lisboa”. Foi nessa ocasião que aderiu ao anarquismo, tendo lido “o livro do Dr. Eltzbacher sobre as doutrinas anarquistas” bem como vários livros de Pedro Kropotkine que adquiriu e que Aurélio Quintanilha lhe emprestou.

Em junho de 1914 abandona Coimbra sem ter terminado a licenciatura em Ciências e foi para Lisboa. Como encontrou dificuldades em conseguir um emprego pensou ir para Paris e depois para os Estados Unidos da América, onde tinha familiares, tendo para tal regressado nos fins de 1914 para os Açores para dali seguir para a América do Norte.

Terminada a Guerra e cansado de esperar pela ida para os Estados Unidos, regressou a Lisboa em setembro de 1919. Foi aí que, através de Aurélio Quintanilha, também natural de Angra do Heroísmo e seu colega no liceu e na Universidade de Coimbra, que contatou com Alexandre Vieira, diretor do jornal “A Batalha”, tendo passado a colaborar com aquele jornal numa secção sobre o movimento sindical e libertário estrangeiro.

A sua maneira de ser fazia com que tivesse dificuldade em manter relações sociais e mesmo conversar só o fazia e pouco com quem se entendia bem. Além disso, a sua entrada para organizações libertárias, onde segundo ele “a principal colaboração foi dada por escrito, atirando como o semeador com o grão à terra, mas deixando que este se desenvolvesse por si, onde encontrasse terreno propício”, deu-se forçando-se um pouco a si próprio.

Após a Primeira Conferência Anarquista da Região Portuguesa que se realizou em maio de 1923, em Alenquer, e onde foi constituída a UAP – União Anarquista Portuguesa, foi constituído um grupo de que Adriano Botelho fez parte, por sugestão de outro açoriano, também natural de Angra do Heroísmo, António José de Ávila, que mais tarde se designou O Semeador. Adriano Botelho, também, fez parte do C. R. da Federação Anarquista da Região Centro, uma das federações regionais em que a UAP estava organizada.

Em 1926, Adriano Botelho foi nomeado para o Conselho Confederal da CGT – Confederação Geral do Trabalho, organização anarco-sindicalista criada a 13 de setembro de 1919, onde se manteve até 1931, ano em que pediu a demissão e escreveu o folheto “Da Conquista do Poder”.

Francisco Quintal, na nota introdutória à reedição do folheto feita, em 1979, pelo Grupo Cultura e Ação Libertária (2), justifica a mesma pelo facto de constituir “uma demonstração clara e eficiente da inutilidade do Estado” e pela sua atualidade então, e dizemos nós ainda hoje, pois vivia-se “numa época em que o corpo do Estado, em plena decomposição, está a ser assaltado por uma multidão de necrófilos constituída por aqueles que, hoje mais assanhados do que nunca e ostentando rótulos que não correspondem às suas ambições, pretendem conquistá-lo […] procurando assim reviver o estafado lema de que o poder é necessário como guia orientador dos povos”.

Em 1932, Adriano Botelho, a pedido de Mário Castelhano voltou para o Comité Confederal, sendo este responsável pela criação do comité que preparou a Greve Geral de 18 de janeiro de 1934, que não contou com a sua presença.

A entrada de anarquistas espanhóis para o governo, durante a Revolução Espanhola de 1936-1939 causou, em Adriano Botelho, “uma profunda revolta, cheia de ódio contra os prevaricadores e seus defensores que se convenceu “de que o que era mais necessário era a divulgação das doutrinas anarquistas” e convencido que não assistiria ao derrube do regime fascista começou “a distribuir jornais e folhetos, entregando alguns a camaradas de Almada e enviando outros para Edgar Rodrigues, no Brasil”.

Embora sempre dissesse que não queria voltar a participar na atividade da CGT, acabou por aceitar pertencer ao grupo que tentou a sua reconstituição, quando os resultados da Guerra de 1939-1945 começaram a ser favoráveis às “democracias”, tendo feito parte dos comités confederais até ao seu desaparecimento por volta de 1965.

Adriano Botelho que sempre preferiu no movimento específico anarquista dedicou quase toda a sua vida a divulgar os ideais em que acreditava, tendo sido, segundo Correia Pires (3), um “excelente jornalista e não houve nenhum jornal anarquista no tempo que não colaborasse e até nos jornais operários como “A Batalha”, “A Comuna”, a “Aurora” e muitos outros”.

Depois do 25 de abril de 1974, Adriano Botelho continuou a sua labuta, tendo colaborado com a “Voz Anarquista” e em maio de 1974 escreveu o texto “Ao Povo Português”, onde mostra alguma esperança na construção da sociedade que ele tanto almejou, uma “sociedade baseada na completa liberdade dos indivíduos, simplesmente limitada pela liberdade igual dos restantes.” Segundo ele, na sociedade pretendida haverá a “socialização (não nacionalização) de todos os meios de produção (terras, fábricas, minas), entregues aos próprios trabalhadores, para serem utilizados em benefício da coletividade e não de minorias parasitárias” e onde “será abolido o escravizante regime do salariato e cada um produzirá, segundo as suas forças e consumirá segundo as suas necessidades. Aliás esta é a forma praticada no seio de todas as famílias moralmente constituídas”.

Nos seus escritos, Adriano Botelho abordou os mais diversos temas de que são exemplo, a história do movimento operário e anarquista em Portugal, a luta contra o salazarismo, os acontecimentos no estrangeiro, nomeadamente os associados à Revolução Russa e à Guerra de 1936-39 em Espanha, a organização e a propaganda anarquista, o sindicalismo, a religião e a ciência, os espetáculos imorais, etc., etc.

Sobre as touradas de praça, um dos espetáculos imorais referidos, Adriano Botelho escreveu, a 10 de agosto de 1925, no suplemento ilustrado d’A Batalha, o seguinte: ”…fazem-se por outro lado, reclames entusiastas de espetáculos, como as touradas de praça onde por simples prazer se martirizam animais e onde os jorros de sangue quente, os urros de raiva e dor e os estertores da agonia só podem servir para perverter cada vez mais aqueles que se deleitam com o aparato dessa luta bruta e violenta, sem qualquer razão que a justifique” e acrescentou: “E - caso assombroso! – já se chegou até ao arrojo de se condecorar por atos de filantropia um toureiro qualquer, digno filho da Espanha fradesca e reacionária, como se na arte de atormentar barbaramente animais – quase sempre colocados em desigualdade de circunstâncias para a defesa – pudesse haver algo de generoso e altruísta”.

Tendo vivido apenas cerca da quinta-parte da sua vida nos Açores, Adriano Botelho escreveu muito pouco sobre a sua terra natal. Com efeito, sobre os Açores apenas conhecemos o texto “Independência dos Povos” que foi publicado pela primeira vez no número 24 da “Voz Anarquista, de Agosto de 1977.

No texto mencionado, depois de mencionar que a situação dos Açores é diferente da “dos outros povos colonizados por Portugal, na África, Ásia e América”, onde os seus habitantes foram escravizados e alguns vendidos “como animais de carga”, Adriano Botelho afirmou que “nas camadas populares não existem, em geral, ideias de integração na república norte-americana e muito menos aspirações separatistas”.

Segundo Adriano Botelho, apenas “alguns magnatas da ilha de S. Miguel, preocupados sobretudo com a situação que lhes possa melhor garantir a sua privilegiada posição”, sem muitos seguidores nas outras ilhas, terão aspirações separatistas. O povo, por seu turno, escreve Adriano Botelho” continuará explorado e oprimido, evidentemente enquanto estiver sob o domínio de qualquer Estado: Açoriano, Português ou Norte-Americano, pois só com o desaparecimento desta instituição, como aliás em todo o mundo, é que ele conseguirá libertar-se integralmente”.

São Miguel (Açores), 1 de maio de 2017
Teófilo Braga

(1) http://www.culturacores.azores.gov.pt/ea/pesquisa/?id=7376
(2) http://mosca-servidor.xdi.uevora.pt/projecto/components/com_library/texts/14_BNP_AHS3813.pdf
(3) Introdução ao folheto “Ao Povo Português”.

BIBLIOGRAFIA

Abreu, C., Freire, J. (1989). Adriano Botelho memória e ideário (antologia de textos). Angra do Heroísmo: Direção Regional dos Assuntos Culturais.
Botelho, A. (1974). Ao Povo Português. Almada: Delegação de Almada do Movimento Libertário Português.

(A Ideia, 81/83, outono de 2017, p: 250 e 251)

terça-feira, 30 de janeiro de 2018

António Gonçalves Correia e a Caça



Notas Zoófilas (131)
António Gonçalves Correia e a Caça

António Gonçalves Correia (1886-1967) foi um anarquista português seguidor das ideias de Tolstói. Coerente com os ideais que defendia, para além de acérrimo defensor dos direitos humanos, foi defensor de todos os animais ditos irracionais.

Foi poeta e ensaísta, tendo colaborado em diversos jornais como “A Batalha”, “A Aurora” ou “O Rebelde”. Para a divulgação do seu pensamento fundou o jornal “A Questão Social” e publicou as obras “Estreia de um crente” e “A felicidade de todos os seres na sociedade futura”.

No opúsculo “Estreia de um crente”, publicado em 1917, em edição de autor, Gonçalves Correia publica uma carta dirigida a um caçador onde de forma pedagógica, embora não escondendo o que pensa, o tenta convencer a deixar de caçar lembrando-lhe que “(…) matar por prazer, como V. faz (…) nada mais é do que procurar impedir o avançar esta vida harmónica e vibrante a que todos têm direito!”.

Na carta, Gonçalves Correia, recomenda ao seu amigo que procure alternativas à caça, do seguinte modo:

“Um homem culto, um espírito superior, um indivíduo que tem à mão, conquistados pelo seu labor constante, material ou intelectual, os elementos precisos, dignos e morais, para a distracção do seu espírito, não pega em uma espingarda miserável para ir matar com diabólico prazer as inocentes avezinhas, cuja utilidade é incontestável, utilidade que de mil maneiras se manifesta. E V., que dispõe de elementos materiais razoáveis, que tem um cérebro normal, que tem um coração que sente, pode muito bem procurar outros prazeres mais dignificantes e mais razoáveis.

O leitor interessado no texto completo poderá recorrer à publicação mencionada ou ao número 276 do jornal A Batalha, de setembro-outubro de 2017, onde para além da carta terá acesso a uma introdução feita por Francisca Bicho.

Teófilo Braga
30 de janeiro de 2018

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Vida Nova, nº 11


terça-feira, 2 de janeiro de 2018

Quem nos governa?

sábado, 30 de dezembro de 2017

Ciência e anarquismo

sexta-feira, 9 de junho de 2017

“A República” e Ferrer Y Guardia

“A República” e Ferrer Y Guardia

“O verdadeiro educador é aquele que, às vezes até mesmo contra as suas próprias ideias e vontades, apoia a criança e o desenvolvimento de suas energias.” (Ferrer y Guardia)

Francisco Ferrer y Guardia (1859-1909) foi um pedagogo libertário espanhol criador da Escola Moderna que foi fuzilado em 12 de outubro de 1909, acusado, injustamente, de ter instigado uma insurreição operária em Barcelona, em julho daquele ano.

O assassinato de Ferrer y Guardia foi condenado em todo o mundo, não só pelas pessoas e organizações que possuíam a mesma ideologia, mas também por todos os que defendiam ideias humanistas e progressistas.

Em texto anterior, publicado neste jornal no dia 22 de outubro de 2014, mencionei algumas reações à sua morte publicadas nos seguintes jornais de São Miguel: “Vida Nova”, de Francisco Soares Silva, “A Folha”, de Alice Moderno e “O Repórter”, de Alfredo Câmara. Hoje, darei a conhecer o conteúdo de alguns textos publicados no jornal “A República” que tal como os anteriores se publicou em Ponta Delgada.

Em novembro de 1911, “A República” noticiou a inauguração de um monumento de homenagem ao “mártir da liberdade de pensamento”, Francisco Ferrer, na Praça de Santa Catarina na cidade de Bruxelas.

Em março de 1912, numa pequena nota intitulada “A reação protestou” o autor, a propósito da entrega dos livros de Ferrer aos seus legítimos herdeiros escreveu o seguinte:

“Olha a novidade! Pois o que havia de fazer se não protestar?

O que ela queria, era que os livros fossem queimados, e que a luz que d’eles possam receber os que os lerem, fosse apagada para não mais brilhar.

Mas que importa que a reação proteste, se o facho da Verdade e da Liberdade vai iluminando quase todo o mundo?

Para crime bem bastou a morte de um homem; ainda lhe queriam matar a obra.”

Em junho de 1913, o jornal publica um extrato de um discurso do “pai do socialismo” em Espanha, Pablo Iglésias (1850-1925), onde este depois de afirmar que ainda que Ferrer fosse responsável pela Semana Trágica de Barcelona seria “politicamente inábil matá-lo porque representava e simbolizava grandes elementos de opinião”. No mesmo discurso Iglésias afirmou o seguinte:

“Mas o mais monstruoso é que o mataram, como sendo o caudilho d’uma revolução, caudilho que de facto não foi. Não puderam nunca demonstrá-lo. Dizeis que se cumpriu a lei; pois se se tratou de um assassinato e se este se fez em nome da lei, essa lei é monstruosa”.

No mesmo mês, o jornal noticiava a morte de Paz Ferrer, filha do “imortal mártir de Montjuich” que sofreu muito com a morte do seu pai de tal modo que o autor do texto escreveu : “…Depois da morte de seu pai, o desespero tornou-a ainda maior, e na idade em que só há sorrisos e flores ela conheceu as inenarráveis amarguras da Dor. Esse seu desespero matou-a. Pobre Paz Ferrer! Foi vítima do crime que matou o pai!”

Hoje, com a escola a atravessar uma grande crise, com os governantes a tentar implementar reformas atrás de reformas, projetos atrás de projetos importa estudar todas as experiências educativas, nunca esquecendo que não se consegue sucesso na escola numa sociedade de sucesso para muito poucos.

O projeto pedagógico de Ferrer y Guardia, que teve a primeira concretização em 1901 com a criação da primeira escola moderna, numa altura em que em Espanha a taxa de analfabetismo era superior a 50%, é um dos que deve merecer a atenção por parte de quem se preocupa em deixar uma melhor sociedade para os vindouros.

Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31248, 8 de junho de 2017, p.15)